Quando o Ego se Dissolve

 

Existe uma voz dentro de nós. Não é a intuição, nem a fé. Ela é mais antiga, mais alta e, muitas vezes, mais cruel. Essa voz é o Ego.

No momento exato da nossa maior dor, quando recebemos o golpe mais violento, sem pudor ou qualquer empatia pela vida, ele vem. Magoa as memórias e traz as piores lembranças para consolidar a culpa, num trabalho incansável. O seu objetivo é um só: destruir o indivíduo por dentro, destruir o "eu" que existe em cada um.

É a voz mestra da divisão, dividindo o que é para ser único. Olha para a nossa vida com o julgamento de um Juiz e joga na nossa cara a própria falta de autocompaixão. Ele traz a ansiedade, aliada sorrateira que aparece nos momentos de maior fragilidade e confusão, procurando culpados sem cessar, julgando para validar o caos do aprendizado. Ele exige um culpado, exige encontrar um vilão. Vem para transformar toda a nossa vida num único momento de fragilidade, de humanidade falha, e quer convencer-nos de que este é o nosso "eu": uma falha! O Ego vem como um regente tirano no automático da mente.

Mas, existe esperança. Descobrimos que não é o fim da história. Quando percebemos que o golpe não foi fatal, entendemos que era somente barulho. Descobrimos a mente analítica, o nosso eu, a nossa verdade interna.

Essa é a parte em que nos vemos no meio da ansiedade e conseguimos dizer: "Espera. Estou a ver o que a minha mente está a fazer. Estou a identificar o automático. A minha mente está a contar-me uma história."

Neste momento, vemos o Ego não mais como a verdade, mas somente como o carrasco. A libertação acontece quando não há luta externa, nem raiva, nem caos. No nosso "Eu" mais profundo, descobrimos a empatia com nós mesmos. E é nessa empatia que encontramos a coragem de aplicar a nossa filosofia mais sagrada ao nosso próprio ser: "Amai ao próximo, pois o mais próximo de ti, és tu mesmo."

Afastamo-nos do ruído do Ego, não para o atacar, mas para o "restringir". Mudamos o foco. Escolhemos, conscientemente, ouvir a nossa "Verdade Interna", que sussurra: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. E o meu caminho é reto."

Descobrimos a realidade que nos diz: "Quando o ego se dissolve, nasce a liberdade." A cada momento em que escolhemos não acreditar na sua história de "decadência", ele dissolve-se. Dissolve-se a cada ato de autocompaixão.

A liberdade não é a ausência de dor ou de medo. A liberdade é a "experiência de ser como um todo": é ser o ser humano que sente a ansiedade do Ego, mas que também sente a paz inabalável da sua "Verdade Interna".

É a paz de saber que nós não somos o "carrasco cruel". Nós somos a Testemunha silenciosa que o observa com compaixão e que escolhe, uma e outra vez, o caminho do Amor.