A Invisibilidade do Outro: O Colapso da Empatia na Era da Distração

Passamos a última década aterrorizados com uma profecia tecnológica: o momento em que a Inteligência Artificial ganharia consciência e, talvez, decidisse que a humanidade é obsoleta. Hollywood e a ficção científica prepararam-nos para lutar contra robôs exterminadores. No entanto, enquanto olhávamos para o futuro com medo das máquinas, não percebemos um perigo muito mais imediato e silencioso que crescia ao nosso lado: não é a máquina que está a ganhar consciência, é o ser humano que a está a perder.

​Vivemos o fenómeno da "NPCzação" da realidade. Para quem não joga videojogos, NPC (Non-Playable Character) é aquele personagem de fundo, o figurante digital que está ali apenas para fazer volume. Ele não tem história, não tem vontade própria e, se o mundo explodir à sua volta, ele continua a varrer o chão ou a caminhar em linha reta, porque o seu código não lhe permite reagir.

​Assustadoramente, começamos a ver esse comportamento fora das telas.

​Basta entrar num refeitório corporativo ou num restaurante movimentado. Centenas de pessoas partilham o mesmo espaço físico, respiram o mesmo ar, mas estão espiritualmente isoladas em bolhas impenetráveis. O colega ao lado não é visto como um ser humano complexo, com dores e alegrias; ele é tratado como um obstáculo no caminho para o buffet ou um ruído de fundo. A isto chamamos "Invisibilidade Social".

​Recentemente, fomos confrontados com notícias que desafiam a nossa compreensão moral. Casos em que tragédias acontecem — como um afogamento numa piscina pública ou um acidente urbano — e as pessoas em redor simplesmente não reagem. Não se trata de psicopatia ou maldade calculada. Quem tem maldade, pelo menos sente algo. O que observamos é o vazio. É a apatia absoluta.

​O algoritmo biológico dessas pessoas está tão focado na sua própria "hiper-realidade" (as notificações do telemóvel, a ansiedade do futuro, a imagem social) que a "realidade base" (alguém a precisar de ajuda a dois metros de distância) não é processada. Os olhos veem, mas a consciência não regista. O "Observador" — aquela instância interna que nos torna humanos e capazes de julgamento moral — saiu da sala.

​Se a História nos ensinou algo, desde a Revolução Cognitiva até hoje, é que a nossa força reside na cooperação e na capacidade de ver o outro. Immanuel Kant dizia que devemos tratar a humanidade sempre como um fim, nunca apenas como um meio. Hoje, corremos o risco de não tratar o outro nem como fim, nem como meio, mas como "nada".

​Não precisamos de chips cerebrais para nos tornarmos robôs. A apatia é o efeito colateral de uma sociedade distraída. O ato mais revolucionário que podemos praticar hoje não requer tecnologia. Requer presença. É levantar a cabeça, olhar nos olhos de quem nos serve o café, perceber a angústia no rosto de um colega e quebrar a bolha. A luta contra a desumanização começa quando decidimos voltar a ser os protagonistas da nossa própria humanidade, e não apenas figurantes num mundo que deixamos de observar.